Mudanças climáticas e a crescente demanda por alimentos produzidos de forma sustentável colocam a agroecologia no centro das estratégias para uma agricultura mais resiliente e ambientalmente responsável. No Espírito Santo, esse modo de produção agrícola vem sendo desenvolvido e difundido há 35 anos pela Unidade de Referência em Agroecologia (URA) do Instituto Capixaba de Pesquisa, Assistência Técnica e Extensão Rural (Incaper).
Localizada no Centro de Pesquisa, Desenvolvimento e Inovação Serrano (CPDI Serrano), em Domingos Martins, a unidade, criada no início da década de 1990, é uma das primeiras iniciativas desse tipo no Brasil e se consolidou como um espaço estratégico para a geração, validação e socialização de práticas agroecológicas voltadas à agricultura familiar capixaba. Somente em 2025, o local recebeu mais de 600 visitantes, entre estudantes, professores, agricultores, técnicos e representantes de instituições públicas e privadas, inclusive de outros países.
Além das visitas técnicas, a URA oferece vivências e estágios práticos para alunos de cursos técnicos e de graduação, contribuindo para a formação de profissionais comprometidos com a produção de alimentos mais saudáveis, a conservação ambiental e o fortalecimento da agricultura familiar. O contato direto com as áreas demonstrativas permite aos visitantes conhecer tecnologias aplicáveis à realidade do campo capixaba.
Atualmente, as ações desenvolvidas na unidade concentram-se em atividades estratégicas para a agroecologia, com destaque para a multiplicação de variedades de hortaliças tradicionalmente cultivadas por agricultores familiares e adaptadas ao sistema agroecológico, como tomate, batata-doce, bucha vegetal, couve-flor e milho. Parte desse trabalho também envolve a produção e a distribuição de sementes crioulas e adaptadas, especialmente de tomate, milho e feijão, disponibilizadas a agricultores familiares como forma de fortalecer a autonomia produtiva, valorizar a agrobiodiversidade e reduzir a dependência de insumos externos.
Unidade é coordenada pelo pesquisador Jhonatan Marins A URA também atua na gestão de resíduos agrícolas e agroindustriais para a produção de fertilizantes orgânicos, utilizando biomassas vegetais e resíduos como bagaço de malte de cervejaria, casca de banana, casca de ovo e casca de café. Esses materiais são utilizados
principalmente na produção do composto fermentado do tipo bokashi, fertilizante empregado nas pesquisas e na adubação das espécies cultivadas na unidade.
“O bokashi contribui para o fornecimento equilibrado de nutrientes e para a introdução de microrganismos benéficos, fortalecendo as características químicas, físicas e biológicas do solo”, explica o pesquisador Jhonatan Marins, coordenador da URA.
Outro eixo das atividades é o manejo de plantas de cobertura do solo, fundamentais para a proteção contra a erosão, a fixação biológica de nitrogênio, o aumento da matéria orgânica, a ciclagem de nutrientes e o controle de plantas espontâneas. Entre as espécies utilizadas estão crotalárias, tephrosias, feijão-de-porco, mucunas, nabo forrageiro, aveia preta, trigo mourisco e tremoço branco.
Para a produção de mudas de hortaliças e frutíferas, as pesquisas são direcionadas ao desenvolvimento de substratos alternativos, com foco na redução de custos, no aproveitamento de resíduos orgânicos e na autonomia dos sistemas produtivos.
“Também temos trabalhado com bioinsumos, como produtos à base de algas marinhas e microrganismos com potencial para a promoção do crescimento vegetal e o biocontrole de fitoparasitas”, acrescenta Jhonatan.
Reconhecimento e legado
Ao longo de sua trajetória, a URA recebeu diversos reconhecimentos de instituições públicas e da sociedade em geral, materializados em prêmios e distinções que reforçam sua relevância técnica, científica e social.
Entre os destaques está o Prêmio Celso Furtado de Desenvolvimento Regional, concedido em 2014 pelo Ministério da Integração Nacional, na categoria Projetos Inovadores. Em 2016, a unidade também foi reconhecida como Melhor Projeto de Instituição Pública do Espírito Santo, premiação concedida pela Secretaria da Ciência, Tecnologia, Inovação e Educação Profissional (Secti).
Nessas conquistas, esteve à frente da URA o pesquisador Jacimar Luis de Souza, hoje aposentado, responsável técnico pela unidade durante grande parte de sua história e um dos principais responsáveis por sua implantação e consolidação.
Ao relembrar a trajetória da unidade, Jacimar explica que a criação da URA respondeu a uma demanda crescente da sociedade por alimentos mais saudáveis, num momento em que esse debate começava a ganhar força no Brasil e no mundo. Segundo ele, desde o início a proposta foi diferente dos projetos tradicionais de pesquisa, normalmente voltados a áreas específicas.
“É uma iniciativa ampla e multidisciplinar, que reúne pesquisas em diversas áreas do conhecimento e ajuda a compreender, de forma integrada, o funcionamento dos sistemas agroecológicos e orgânicos de produção”, afirma.
Ao longo desses 35 anos, a URA gerou conhecimentos que vão desde o melhoramento genético até o manejo dos sistemas produtivos. “Essas tecnologias foram todas muito importantes para apoiar e orientar os agricultores na produção de alimentos orgânicos com mais eficiência”, destaca Jacimar. Entre as principais linhas de pesquisa trabalhadas por ele estão a seleção de variedades adaptadas ao sistema orgânico, o manejo e a recuperação da fertilidade do solo, além de práticas como adubação verde, compostagem, reciclagem de biomassa e plantio direto na palha.
Jacimar de Souza, pesquisador e idealizador da URA Um dos trabalhos mais emblemáticos, segundo o pesquisador, foi o desenvolvido na área de sementes orgânicas, voltado à preservação do patrimônio genético e ao fortalecimento da autonomia dos agricultores familiares. “Selecionamos e multiplicamos sementes orgânicas que foram entregues aos agricultores para que eles tivessem domínio sobre a própria semente”, explica. Como exemplo, Jacimar cita o milho crioulo lançado em 2018, resultado de 28 anos de seleção dentro da unidade, com sementes distribuídas em todo o Espírito Santo e também em outros estados.
Os estudos conduzidos na URA também demonstraram ganhos expressivos na qualidade do solo. De acordo com Jacimar, os sistemas orgânicos mostraram grande eficiência na melhoria da fertilidade ao longo do tempo, com aumento do estoque de carbono. “É um sistema que sequestra muito carbono, o que é muito bom para o planeta”, afirma.
Outro resultado relevante das pesquisas está relacionado aos custos de produção e à eficiência energética dos sistemas agroecológicos. “As pesquisas mostram que o custo de produção na roça é menor do que no sistema convencional”, destaca. Além disso, ele ressalta que os estudos comprovaram a eficiência energética positiva da agricultura orgânica - ou seja, produz mais energia em forma de alimentos do que consome ao longo do processo produtivo.
Para Jacimar, a principal contribuição da Unidade de Referência em Agroecologia à sociedade está na comprovação científica da viabilidade desses sistemas. “O grande legado da URA é provar, por meio de estudos científicos publicados no Brasil e no exterior, que a agricultura orgânica é limpa, eficiente e sustentável”, afirma. Segundo o pesquisador, essas experiências servem de referência inclusive para a agricultura convencional, ao incorporar práticas que contribuam para reduzir impactos ambientais e enfrentar os desafios das mudanças climáticas.
Agendamento de visitas
As visitas à Unidade de Referência em Agroecologia podem ser realizadas mediante agendamento prévio, pelo e-mail jhonatan.goulart@incaper.es.gov.br. O CPDI Serrano fica na Fazenda do Estado, em Aracê, Domingos Martins (BR-262, km 94).
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Felipe Ribeiro
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