A Fazenda Experimental do Instituto Capixaba de Pesquisa, Assistência Técnica e Extensão Rural (Incaper), em Venda Nova do Imigrante, ganhou recentemente uma Área de Coleta de Sementes com Matrizes Selecionadas (ACS-NM). A iniciativa vai possibilitar, a partir de 2027, o fornecimento de sementes nativas da Mata Atlântica para agricultores capixabas que queiram implantar ou ampliar Sistemas Agroflorestais (SAFs), que combinam o cultivo de espécies florestais com culturas agrícolas, promovendo produção de alimentos e conservação ambiental.
O projeto é desenvolvido em parceria com a Universidade Federal do Espírito Santo (Ufes), sob coordenação da professora Cristiane Coelho de Moura, e conta com financiamento da Fundação de Amparo à Pesquisa e Inovação do Espírito Santo (Fapes).
A expectativa é atender produtores rurais de diferentes perfis e escalas, que demandem sementes tanto para a implantação ou ampliação de agroflorestas quanto para o cumprimento da legislação ambiental, especialmente no que se refere às Áreas de Preservação Permanente (APPs) e à Reserva Legal.
Pesquisadores selecionaram árvores matrizes com potencial para uso produtivo e ambiental Foto: acervo do projeto A Área de Coleta de Sementes foi implantada em 2025, em um fragmento florestal de cerca de 32 hectares, onde foram selecionadas árvores matrizes com potencial para uso produtivo e ambiental. Entre elas estão o pau-jacaré (Piptadenia gonoacantha), angico-vermelho (Anadenanthera colubrina), canela-preta (Nectandra membranacea), pau-pereira (Platycyamus regnellii), garapa (Apuleia leiocarpa), pata-de-vaca (Bauhinia forficata), sapucainha (Carpotroche brasiliensis), além de espécies ameaçadas de extinção, como o palmito-juçara (Euterpe edulis) e o jequitibá-rosa (Cariniana estrellensis).
A coleta de sementes já começou, mas, neste primeiro momento, está voltada às análises laboratoriais. Segundo a pesquisadora do Incaper Alessandra de Lima Machado, esses estudos avaliam viabilidade, tolerância ao armazenamento e qualidade fisiológica do material. A distribuição para os agricultores está prevista para as etapas finais do projeto, após a conclusão dos testes.
“É importante coletar sementes de áreas como essa porque elas reúnem condições ecológicas, genéticas e ambientais estratégicas para a produção de material de alta qualidade, essencial para ações de restauração e sistemas produtivos sustentáveis”, explica Alessandra.
O fragmento apresenta um histórico de regeneração natural passiva de aproximadamente 40 anos, resultando em populações bem estabelecidas e adaptadas às condições de clima e solo. “A coleta nessas condições assegura variabilidade genética, maior capacidade de adaptação das mudas e maior sucesso no estabelecimento em campo, reduzindo riscos de mortalidade e falhas em projetos de restauração e implantação de SAFs”, acrescenta a pesquisadora.
Benefícios dos Sistemas Agroflorestais
O fomento à formação de SAFs cumpre papel estratégico tanto do ponto de vista produtivo quanto ambiental. “Esses sistemas são utilizados para a recuperação de áreas degradadas e também para a adequação legal da propriedade, como a recomposição de Reserva Legal exigida para o Cadastro Ambiental Rural”, cita Alessandra.
O uso de espécies nativas torna os SAFs mais resilientes às mudanças climáticas, uma vez que as plantas estão adaptadas às condições locais de clima e solo, ajudam a proteger e melhorar a qualidade do solo, regulam o microclima, sequestram carbono e aumentam a biodiversidade.
“A presença de espécies nativas favorece a retenção de água, reduz o estresse hídrico e térmico das culturas e aumenta a estabilidade do sistema ao longo do tempo. Elas também contribuem para a manutenção da fauna silvestre, fornecendo alimento e abrigo para polinizadores, dispersores de sementes e inimigos naturais de pragas, fortalecendo serviços ecossistêmicos essenciais à produção agrícola”, afirma a professora Cristiane Coelho de Moura.
Além disso, as espécies selecionadas pelo projeto apresentam potencial de uso múltiplo e geração de renda, incluindo produção de madeira, frutos, óleos essenciais e aplicações medicinais. “Essa abordagem permite conciliar a recuperação ambiental com a diversificação produtiva e econômica das propriedades, fortalecendo modelos de produção sustentáveis e resilientes”, destaca Alessandra Machado.
Embora o atendimento aos agricultores seja o foco da iniciativa, a ACS-NM também deverá apoiar ações de interesse público. Parte das sementes será destinada, por exemplo, à Prefeitura de Venda Nova do Imigrante, para uso no viveiro municipal e em atividades de reflorestamento.
A previsão é que a ACS-NM esteja tecnicamente estruturada e validada até julho de 2027, quando poderão ser iniciadas atividades de capacitação, visitação técnica e coleta para distribuição, sempre de forma planejada e sob a gestão do Incaper.
“Queremos tornar essa área um espaço estratégico de integração entre pesquisa, extensão e educação, promovendo a conservação e o uso sustentável das florestas nativas, ao mesmo tempo em que contribui para a formação técnica, científica e ambiental da sociedade”, conclui Alessandra Machado.
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