A construção de barragens para reservação de água tem se consolidado como uma estratégia fundamental para a segurança hídrica e a sustentabilidade da produção agropecuária no extremo norte do Espírito Santo, região marcada por baixos índices de precipitação e longos períodos de estiagem. Nesse cenário, o Instituto Capixaba de Pesquisa, Assistência Técnica e Extensão Rural (Incaper) atua diretamente no apoio técnico aos produtores rurais, desde a elaboração dos projetos até o acompanhamento das obras em campo.
Segundo o extensionista Felipe Neves, do escritório local do Incaper em Mucurici, o Instituto orienta os agricultores em todas as etapas do processo. “O Incaper tem o papel de orientar os produtores sobre o procedimento para regularizar um barramento junto ao órgão ambiental fiscalizador e ao Conselho Regional de Engenharia e Agronomia do Espírito Santo (Crea-ES), além de auxiliar na elaboração do projeto técnico e acompanhar em campo a execução das obras de barragem de terra”, explica.
O trabalho é realizado de forma integrada com outras instituições. Enquanto os técnicos do Incaper atuam na elaboração dos projetos e no acompanhamento das obras, o Instituto de Defesa Agropecuária e Florestal do Espírito Santo (Idaf) é o órgão ambiental fiscalizador, e o Crea-ES responde pela fiscalização do exercício profissional e das condições técnicas das estruturas.
Exemplo de Mucurici
No município de Mucurici, um dos que registram os menores índices de precipitação do Espírito Santo, a construção de barragens é considerada essencial para a manutenção das atividades agropecuárias. O município possui poucos córregos perenes e de baixa vazão e, ao mesmo tempo, o extremo norte capixaba tem vivenciado a expansão de áreas cultivadas, substituindo parte das pastagens. Nesse contexto, a formação de reservatórios para atender à demanda hídrica das lavouras por meio da irrigação é fundamental para garantir segurança e sustentabilidade produtiva.
De acordo com Felipe Neves, entre projetos de construção e reforma, o Incaper apoiou, entre 2023 e 2025, 23 barragens de terra em Mucurici e nos municípios vizinhos de Ponto Belo e Montanha. As estruturas têm capacidades que variam entre 20 mil e 80 mil metros cúbicos. Na média, isso representa um potencial de armazenamento de cerca de 1,15 milhão de metros cúbicos de água, volume equivalente a aproximadamente 460 piscinas olímpicas.
Impactos no campo
A reservação de água tem reflexos diretos na produção e na renda das famílias rurais. No Assentamento Córrego da Lage, em Mucurici, o produtor Thiago Soares da Cunha relata que a decisão de construir a barragem foi estratégica para ampliar a produção de leite e viabilizar o cultivo irrigado de café.
“A motivação foi aumentar a produção, tanto nas pastagens quanto no café, que precisa de irrigação. Antes, a situação era muito limitada. Quando vinha a seca, não tinha como investir ou aumentar a produtividade”, conta.
Segundo ele, a realidade mudou após a conclusão da obra. “Depois que fizemos a barragem, melhorou muito. A gente passou a ter garantia de água e mais segurança para investir. A renda praticamente dobrou, porque você faz a barragem, investe em irrigação e consegue produzir mais”, afirma.
Thiago destaca ainda o papel decisivo da assistência técnica. “O apoio do Incaper foi fundamental, tanto na parte da documentação quanto na orientação técnica. O acompanhamento foi constante. Desde a escolha da melhor área para reduzir custos até a execução da obra”, relata.
Outro exemplo vem da região de Córrego Pajeú, também em Mucurici, onde o produtor Matheus Martins Herzog investiu na construção da barragem antes mesmo de iniciar o plantio. Segundo ele, a decisão foi estratégica para garantir a disponibilidade de água às lavouras de café conilon que pretende implantar na propriedade. “Não adianta investir em lavoura sem ter garantia de água”, afirma. Ele também destaca o apoio do Incaper, com orientação e acompanhamento técnico em todas as etapas da obra.
Para o extensionista Felipe Neves, esse é justamente o diferencial do trabalho. “As barragens trazem segurança hídrica, permitindo a ampliação de investimentos nas lavouras, o aumento das áreas de plantio e a geração de emprego e renda no campo”, pontua.
Em Mucurici, as estruturas têm sido especialmente importantes para a ampliação e implantação de lavouras de mamão, café conilon e pimenta-do-reino, além de atenderem diferentes atividades agropecuárias, desde a limpeza de ordenhas até o funcionamento de agroindústrias.
Orientação técnica e desafios
O trabalho do extensionista é decisivo para garantir que as barragens sejam tecnicamente adequadas e ambientalmente corretas. Isso envolve a análise da topografia para reduzir custos com movimentação de terra e a avaliação da capacidade de contribuição hídrica da área, evitando o superdimensionamento da irrigação em relação ao volume armazenado.
Entre os principais desafios estão a necessidade de mais ferramentas técnicas, como equipamentos de topografia e softwares, além do alto custo de implantação. Barragens de até cinco metros de altura podem demandar investimentos entre R$ 200 mil e R$ 350 mil, dependendo das condições da área.
Diante desse cenário, o Governo do Estado lançou, em 2025, um programa de financiamento voltado à construção de pequenas barragens em propriedades rurais. A iniciativa é da Secretaria da Agricultura, Abastecimento, Aquicultura e Pesca (Seag), operada pelo Banco de Desenvolvimento do Espírito Santo (Bandes), e conta com apoio técnico do Incaper, da Agência Estadual de Recursos Hídricos (Agerh) e do Idaf. A linha de crédito permite financiar até R$ 150 mil por propriedade, contribuindo para viabilizar investimentos em infraestrutura hídrica no meio rural.
Olhar para o futuro
Para Felipe Neves, investir em infraestrutura hídrica é indispensável para o futuro da agricultura no extremo norte capixaba. “Sem água não dá. Confiar apenas nas chuvas não é suficiente. O produtor precisa se planejar e investir em armazenamento para garantir estabilidade produtiva”, destaca.
Segundo ele, o trabalho se soma a outras ações do Incaper voltadas à sustentabilidade, como pesquisas para tolerância à seca e assistência técnica continuada. “É assim que ajudamos os produtores a enfrentarem as dificuldades climáticas e a melhorarem de vida no campo”, salienta.
Visita técnica
Produtores interessados em construir ou reformar barragens devem procurar os escritórios do Incaper nos municípios para agendar uma visita técnica.
Durante a visita, os extensionistas avaliam a topografia da área de implantação do barramento, buscando reduzir custos com a movimentação de terra e o uso de máquinas, e verificam se a hidrografia local é capaz de abastecer a área alagada, garantindo que o volume de água atenda às necessidades de irrigação da propriedade.
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Felipe Ribeiro
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